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Por que eu comecei a escrever na era dos TikToks

18 de janeiro de 2026 · 6 min de leitura
Homem de costas escrevendo num caderno, ao lado de um notebook, uma caneca e um celular, diante de uma janela ao entardecer.

Era uma quarta-feira, um dia como outro qualquer. Acordei cedo e logo comecei minha primeira reunião. Aproveitando a beleza do home office, tomei café enquanto participava da videochamada. Uma reunião se emendou com outra, e com outra. Logo chegou o almoço. Durante a refeição, uma série da Netflix para "fazer um barulho". Um breve scroll no Instagram e já era hora de voltar ao trabalho. Entre demandas e ligações, um podcast para acompanhar o trabalho com algumas planilhas. Assim chegou o final da tarde. Um café e mais alguns e-mails para responder. Opa, chegaram alguns pagamentos para autorizar. Deu de trabalho. Um banho e deitar na cama com minha noiva. Algum tempo no feed do TikTok até ficar sonolento e dormir.

Assim terminava um dia comum na minha vida. Mesmo com o trabalho remoto, estando em casa, com minha família, fazendo o que gosto, os dias estão muito cansativos. Ao final do dia, mesmo com o corpo "descansado", a cabeça está exausta. Os dias vão passando cada vez mais rápido, como se eu estivesse naquela parte dos filmes que passa em timelapse antes de acontecer alguma tragédia e o personagem principal ter que iniciar sua jornada do herói. Ou será que sou apenas um dos coadjuvantes que nem jornada do herói vai viver?

Essa sensação de estar apenas existindo para trabalhar não era o que eu imaginava para a vida adulta. Será que o João de dez anos atrás estaria decepcionado com as escolhas que me trouxeram até aqui? É verdade que muitos dos sonhos que ele tinha foram realizados com os frutos de todo o meu (nosso?) trabalho. Na realidade, muito do que colho agora foi plantado pelo João lá de trás: os livros que ele leu, as linguagens de programação que estudou, o esforço que fez para conquistar a moça bonita que fazia Academia Sapientia com a gente.

Com tudo isso, comecei a pensar mais sobre o que eu queria plantar para o João do futuro. Será que eu me orgulharia dele se continuasse com essa rotina? E, quando questiono isso, não é sobre o que faço no horário comercial, pois o trabalho devolve o que é investido nele de várias maneiras. Falo mais sobre o que estou fazendo além do trabalho. O além do obrigatório é o que faz a diferença no médio e longo prazo. Aquele curso feito para aprender algo novo. Criar conteúdo, mesmo que sua função hoje não exija essa exposição. Dar uma palestra quando convidado, mesmo sem nenhum ganho visível no momento.

Pensamentos como esse vêm habitando minha cabeça há algum tempo. Já fiz algumas iniciativas buscando plantar essas sementes para o futuro, mas sem muito afinco. Comecei um canal no YouTube, participei de podcasts e ajudei alguns conhecidos com uma mentoria informal. Entretanto, tudo o que é feito sem uma estratégia e um objetivo claro acaba sendo engolido pelo cotidiano caótico que estamos enfrentando. E como criar uma estratégia de criação de conteúdo quando a cabeça está sempre ocupada com os problemas do trabalho? Ao final do dia, a gente só quer desligar, entrar no modo automático e torrar alguns miolos assistindo aos TikToks e àqueles vídeos com alta carga de dopamina.

Foi aí que pensei: preciso começar a escrever. Como bom leitor, sempre admirei palavras bem escritas e linhas de raciocínio bem elaboradas nos livros que lia. Devo confessar que, com o passar dos anos e o acúmulo de tarefas, a leitura tem sido cada vez mais rara. Mesmo assim, sabia que precisava escrever. Comecei. Timidamente. Tentei no papel. Tentei no computador. Escrevi sobre o que estava sentindo. Escrevi sobre meus planos para o futuro. Comecei a organizar meus pensamentos por meio da escrita. Nem sempre é fácil. Até se tornar um hábito, é preciso muita força de vontade. Aos poucos, vi que as coisas começaram a fazer sentido. Quando você racionaliza o que sente e pensa, enxerga com mais exatidão o que deve ser feito. Logo comecei a escrever sobre temas do meu interesse. Tecnologia, pessoas, negócios e finanças tornaram-se recorrentes nas minhas reflexões pessoais.

Em um texto que escrevi sobre reflexões de final de ano, me deparei novamente com pensamentos sobre a escrita. Após dois anos de uma prática regular — e, quando digo regular, não quero passar a impressão de algo diário ou semanal, mas sim quando dá na telha — cheguei à conclusão de que deveria expor algumas reflexões sobre temas específicos. A escrita desses textos, um pouco mais densos do que o que se vê nas redes sociais atualmente, traz uma série de benefícios para o João do futuro. Principalmente em um contexto em que o normal se tornou conteúdos randômicos e genéricos criados por inteligência artificial.

Grande parte do conteúdo publicado na internet no último ano foi gerado por inteligência artificial. Isso é bizarro. Ainda mais se você parar para pensar que muitos desses conteúdos não serão acessados por ninguém — ou por ninguém humano. Esses textos acabam sendo "lidos" por IA para criar novos textos. Além disso, quando alguma pessoa cai em um desses blogs automatizados, logo se depara com um resumo gerado por inteligência artificial logo nas primeiras linhas, para que não precise gastar seu precioso tempo lendo o artigo inteiro.

Parafraseando Ray Dalio em Princípios – Vida e Trabalho, todo movimento de mercado gera uma reação aproximadamente igual e oposta. Acredito que existam outras pessoas que pensam como eu, que sentem falta de conteúdos human first e que se conectarão comigo ao longo dessa jornada. Digo isso sem desmerecer o que a IA pode produzir ou o quanto ela pode nos auxiliar como ferramenta. Também não sou contra os novos formatos de conteúdo que estão viralizando, como os vídeos curtos do TikTok. Acredito que existam conteúdos interessantes por lá, ainda que, em sua maioria, sejam superficiais.

Enfim, espero que este texto chegue a mais pessoas reais, que leiam e reflitam sobre o tema. Ficaria muito feliz se conseguisse incentivar bons profissionais a compartilharem seus ofícios de maneira profunda e séria dentro dessa internet cada vez mais superficial e automatizada. Se você é um desses, me faça saber. Vou gostar de ler e acompanhar o que há de mais real e original por aí.

Espero que este texto te encontre bem,

João Baran

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